Escrever um livro? sim, mas em um segundo idioma? E por que?

Entre os meus amigos de infância, durante bate-papos com amigos ou colegas de trabalho, sempre falava sem pensar, “um dia vou escrever um livro”. Ficava encabulada comigo mesma sobre esta ideia: escrever sobre o quê? Perguntava a mim mesma, e começava a rir.

Sempre gostei muito de escrever, mas sobre mim, os meus sentimentos e o que estava acontecendo ao meu redor. Lembro claramente do meu quarto, uma cama, um pequeno guarda-roupa, e, encostada na parede, uma mesinha com uma pequena gaveta no meio, onde eu guardava os meus três tesouros: papel, lápis e borracha.

Lembro também das lágrimas descendo no meu rosto ao escrever, o papel—o meu amigo secreto -, o lápis—a ferramenta que usava para transmitir o meu sentimento em letrinhas bem miúdas -, e a borracha—para apagar o que não estava claramente escrito. Um lixinho ficava do lado esquerdo da mesa. Este era utilizado para esconder todo o meu sofrimento, a minha angústia, o meu desespero num momento em que não tinha mais o que escrever e quando as lágrimas já secaram.

O sonho de escrever um livro nunca saiu da minha cabeça, mas, com o passar dos anos e com as decisões erradas ou certas que tomei, pouco tempo tive para pensar nisto.

Acredito muito no destino, e depois de um término de um casamento que durou vinte e três anos, com as filhas crescidas e eu, já beirando 50 anos de idade, achei tempo para, finalmente, escrever o meu livro tão sonhado.

Confesso que não parei para pensar em que idioma iria escrever o livro. Escrevi a primeira palavra em inglês, eassim foi até o final. Várias pessoas me perguntavam o motivo pelo qual não escrevi em português, e a minha resposta foi sempre a mesma: – quando você mora tantos anos fora do seu país, você perde a fluência do seu próprio idioma.

Foi fácil escrever o manuscrito de 64.149 palavras, mas quando comecei a lidar com as revisoras cujo primeiro idioma era o inglês, fui constantemente intimidada. Eu tive que ouvir comentários como: “Helen, você não está certa, seu primeiro idioma é português, e não o inglês”. Precisando delas, tinha que ficar calada, mas pensava em fazer o seguinte comentário: eu escrevi um livro, eu sei contar uma história, e você não sabe. Elas tomavam decisões precipitadas e não conseguiam entender algumas das passagens do meu livro. Eu tive que passar horas explicando que eu estava certa, e elas erradas. Aqui está um exemplo: “A noiva usava um traje em cor verde e os parentes vestiam lindas roupas; vestidos longos em seda e brilhantes brocados”. As revisoras, automaticamente e sem me consultar, mudaram a passagem para “A noiva usava um traje em cor branca…”. Consequentemente, o mal entendido das revisoras desencadeou várias mensagens, telefonemas e, consequentemente, o aumento dos custos da publicação.

Eu realizei algo bonito ao divulgar minha história para o mundo. A história em si se mantém firme, tem lógica, é compreensível e é persuasiva. Trabalhar no meu segundo idioma é algo para me sentir orgulhosa. Eu não deixei esses comentários destruírem meus sentimentos em relação ao trabalho como um todo, e isto é o que importa.

Mas o prazer maior foi quando eu traduzi o livro, Unveiling the Truth para o português, com os títulos: Dois Mundos: Uma Só Mulher. As revisoras foram excepcionais. Por quê? Porque falamos o mesmo idioma!